O lastro do Bitcoin existe? Entenda de onde vem o valor dessa moeda

O lastro do Bitcoin é uma das principais críticas que se fazem a essa criptomoeda. Para isso muitos, isso faria dela uma moeda defeituosa e que irá eventualmente causar prejuízo aos compradores, já que ele é apenas uma bolha que alguma hora vai estourar.

Mas, antes de tirarmos conclusões, é necessário entender melhor a relação entre as criptomoedas e o sistema de lastro monetário. Para isso é preciso voltar um pouco atrás e entender primeiro o que é lastro e qual sua função.

O que é lastro?

Em resumo, lastro é uma garantia. É uma garantia de que uma coisa sempre valerá uma quantidade x de uma outra determinada coisa. O mais conhecido é o lastro em ouro, ou padrão-ouro.

Para facilitar, vamos exemplificar: suponhamos que você deposite 100 gramas de ouro no banco do João, e o banco, por sua vez, lhe dê um certificado de depósito dessas gramas. Pronto, esse certificado está lastreado na quantidade do metal precioso em reserva.

Essa instituição financeira não pode emitir novos certificados iguais a esse a não ser que tenha equivalentes quantidades de ouro para emiti-los e, quando você achar necessário, pode ir ao banco e resgatar essas 100 gramas de ouro apresentando o documento de posse.

Ou seja, o lastro é usado na maioria das vezes para assegurar uma escassez de oferta.

A função do lastro na moeda

A principal função do lastro nas moedas ao longo da história da humanidade foi de restringir os banqueiros e governantes de práticas imprudentes com a emissão de dinheiro e assegurar escassez da moeda. Isso garantia que os banqueiros e políticos não iriam emitir mais dinheiro do que o equivalente do ouro em custódia.

Essa era a garantia da população de que seu dinheiro não iria perder valor por conta de decisões arbitrárias ou interesses pessoais de terceiros. Além do mais, se ela sentisse algum perigo com relação à confiança da sua moeda, poderia simplesmente ir ao banco e resgatar em espécie o seu ouro ou prata.

Mas se o ouro é tão melhor, porque deixaram de usá-lo? Para entender melhor isso, é preciso voltar no tempo e acompanhar um pouco a evolução do dinheiro e do lastro.

Uma breve história do lastro monetário e o padrão-ouro

Por milênios o ouro e outros metais preciosos foram utilizados como moeda por diversas civilizações devido a suas características físico-químicas, como escassez e durabilidade. Mas carregar porções de ouro e prata de lá para cá é uma tarefa um tanto quanto custosa no dia a dia, isso para não falar da ineficiência e dificuldade das transações diárias.

Para resolver esses problemas, criou-se o papel-moeda. E o que exatamente os bancos faziam? Imagine que você precise comprar alguns pães na padaria e o dinheiro da época é o ouro. Trocar pães por ouro é uma tarefa um tanto quanto complicada devido a diferença de valores de ambos, as pessoas precisavam de um meio de troca mais confiável e prático.

A solução dos banqueiros foi trocar o ouro em si por um certificado de depósito de ouro. Ou seja, as pessoas da época depositavam o seu ouro no banco e o pagavam para que um terceiro de confiança — o banco —, fizesse a custódia do metal precioso com uma reserva de 100% e lhes desse um certificado de depósito em ouro, que era muito mais fácil e prático de ser transportado e negociado por outros bens.

Porém, os certificados raramente eram redimidos em ouro físico. Desse modo sempre havia uma quantidade significativa de ouro que permanecia ociosa dentro dos cofres dos bancos. E isso gerou uma tentação praticamente irresistível para os banqueiros em usar uma fração desse ouro para gerar novos depósitos falsos.

Os bancos começaram a emitir certificados de depósito falsos e a conceder empréstimos aos seus clientes com o ouro ocioso — nessa época ainda não existia Blockchain para que as contas pudessem ser auditadas e monitoradas publicamente —. Ou seja, começaram a praticar reservas fracionárias.

Bancos Centrais lastreando

Com o passar do tempo o Estado passou a intervir mais na economia, intervindo nos bancos e passando a emitir seu próprio dinheiro, como o real, dólar ou euro. Com a instituição das leis de curso forçado, a moeda que circulava não era a melhor e mais confiável, mas sim a moeda que era obrigada por lei.

No início, os bancos centrais também eram adeptos da boa prática de lastrear a própria moeda em algum metal precioso, como a libra esterlina que era a denominação de uma libra de prata. Porém, esse lastro era um empecilho às políticas monetárias da maioria dos países, pois era um impeditivo para a emissão de mais dinheiro sem que houvesse uma reserva equivalente em ouro ou prata em custódia nos cofres dos bancos centrais.

Devido a isso, os estados-nações foram abandonando seus respectivos lastros monetários e os únicos ‘’lastros’’ restantes foram uma possível confiança da população na administração de seu governo e leis de curso forçado.

Bitcoin tem lastro?

Não, o lastro do Bitcoin — e as moedas digitais em geral — não existe. Nenhuma criptomoeda descentralizada tem lastro pois isso as tornaria moedas centralizadas.

Porém isso não é uma desvantagem em relação às moedas comuns como o real ou o dólar, já que essas moedas também não possuem um lastro e todo o seu valor depende das decisões governamentais e da crença da população nelas.

O Bitcoin não precisa de lastro

Uma das principais funções do lastro em uma moeda comum é garantir a escassez de oferta dela. Entretanto, essa já é uma das características intrínsecas do Bitcoin. A moeda digital Bitcoin é escassa por natureza em seu código fonte e sendo assegurada pela tecnologia da Blockchain.

O lastro do Bitcoin é a matemática e não uma commodity física que necessita de um terceiro custodiando. A oferta da criptomoeda é pré-determinada em seu código com uma emissão decrescente e um número máximo de 21 milhões de unidades.

A garantia dessa escassez intrínseca imutável é assegurada por criptografia em uma blockchain descentralizada e uma rede de computadores distribuídos mundialmente e que trabalham de forma contínua para melhorar a segurança da rede.

É impossível uma criptomoeda descentralizada ter lastro

Como uma criptomoeda pode ter lastro sendo ela descentralizada? Por não haver um banco central ou entidade intermediária no seu funcionamento, não há como impor um lastro para uma criptomoeda pois não há quem o faça valer.

Devido à descentralização, não há como garantir que a moeda sempre estará valendo uma quantidade x de terminado objeto. Quem iria custodiar esse lastro para a emissão das moedas? Como se garantiria que há liquidez suficiente para a criptomoeda?

Se faria necessário, obrigatoriamente, que um terceiro intermediasse a emissão da moeda. Dessa forma, tirando o fator descentralização e colocando novamente nas mãos de outra pessoa, a confiança de que ela não irá tomar decisões que façam o seu dinheiro perder valor.

Conclusão

Algumas pessoas dizem que o Bitcoin tem, sim, um lastro. A justificativa se dá pelo custo necessário para se minerar uma unidade da moeda. É um argumento interessante, de fato, mas incorreto.

Esses valores são subjetivos e têm uma grande variação de acordo com a região e moeda local. Além disso, com o passar do tempo esses custos se tornam cada vez mais altos com os halvings — processo no qual a cada um determinado período a recompensa dada aos mineradores é diminuída — e a competição acirrada pela mineração de bitcoins. Entretanto, no fim das contas, vale para o Bitcoin o mesmo que vale para qualquer moeda: seu valor é subjetivo.

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